IMPRENSA INDEPENDENTE

Recebemos dezenas de e-mails de leitores criticando a falta de independência e imparcialidade da mídia, notadamente da imprensa. Os leitores, sensatos mas convencionais, parecem acreditar de verdade na possibilidade de imprensa livre, imparcial, autônoma e objetiva. Sinto decepcioná-los e arrisco a dizer que creem em ficção. Não há, nunca houve e, possivelmente, jamais haverá mídia inteiramente independente e imparcial. O que se busca, em verdade, é o máximo de objetividade, nem sempre sustentada na informação de que a objetividade é relativa e moldada por um olhar ideológico, por uma percepção mediada por interesses. O respeito aos fatos é crucial, mas não há fatos crus, apresentados sem interpretação, sem vieses. O que se exige é um terreno mínimo ou comum, baseado em parâmetros admitidos pela maioria, ao se apresentar as ideias-verdades dos grupos políticos, econômicos, sociais e culturais.

Na semana passada, ao entrevistar Osmar Magalhães, secretário de Governo da Prefeitura de Goiânia — uma das vozes lúcidas e democráticas do Partido dos Tra­ba­lhadores —, eu e Elder Dias, o redator-chefe do Jornal Opção, ouvimos que o mestre cancelou a assinatura da revista “Veja”. Dei­xou-nos a impressão de que quer ler apenas aquilo que a “CartaCapital” publica. De um militante das ruas, de um cumpridor de tarefas rotineiras, aceita-se que não queira conhecer o pensamento do suposto adversário, mas ouvir isto de um intelectual é, ou deveria ser, impensável. O sociólogo Russell Jacoby, autor do excelente “O Fim da Utopia — Política e Cultura na Era da Apatia” (Record, 304 páginas), diz que o pensamento liberal fecunda o pensamento da esquerda e vice-versa. Quando os dois pensamentos afastam-se completamente um do outro, recusando o diálogo, no lugar de ficarem mais ricos e democráticos, ficam mais pobres e autoritários. A ideia do fim da história, proposta pelo filósofo americano Francis Fukuyama, era e é apenas uma resposta liberal ao fim da história sugerido pela esquerda — o socialismo seguido do comunismo. Quando as ideias divergentes não se excomungam, o que às vezes ocorre, as filosofias e ideários dos grupos políticos se tornam mais fortificados. A esquerda contaminada pelo liberalismo se tornou “mais” democrática, aceitando a socialdemocracia como alternativa ao totalitarismo comunista e contribuindo para tornar o capitalismo menos “selvagem”. O liberalismo contaminado pela ideia de igualdade da esquerda tornou-se, em alguns países, como os escandinavos, menos afeito ao lucro a qualquer custo e abriu as portas para um investimento maciço no social.

No Brasil, na maior parte devido ao sectarismo da esquerda petista — que avalia que precisa dos outros partidos, como os dirigidos pelas conservadoras elites estaduais, tão-somente para manter o poder federal — e à tibieza da oposição, que não consegue definir um discurso crível para apresentar à sociedade, há, no momento, uma divisão na (e sobre a) mídia. Fala-se, entre os petistas e aqueles que, mesmo não sendo petistas, foram cooptados por suas ideias nas redes sociais — sem saber exatamente o que está fazendo mas acreditando que estão participando de uma “coisa realmente muito importante” —, que a revista “Veja” está contra o governo da presidente Dilma Rousseff, ou melhor, contra o governo do PT. O que é uma leitura equivocada. A “Veja”, até agora, apoia o governo de Dilma Rousseff e é crítica, de modo acerbo, do governo anterior, de Luiz Inácio Lula da Silva. Na verdade, “Veja” apoia o mercado, tanto que, equivocamente, escreve “estado” em letra maiúscula, como se este fosse descartável. O momento não é propício, pois o Estado, envolvido numa crise que foi gerada pelo mercado — e não pelos gastos do Estado —, tem sido convocado pela iniciativa privada para salvá-lo. Em todo o mundo. Como Dilma Rousseff apoia o mercado e não parece disposta a “regular” a im­prensa — como pretende Lula da Silva e seu Sancho Pança, Franklin Martins —, “Veja” não a ataca. Pelo contrário, mesmo uma leitura superficial mostra que a revista aprova seu governo. A presidente tem sido apresentada como a face “moderna” do PT, o rosto não autoritário. Por enquanto, tem sido assim.

O leitor certamente começa a se perguntar: a “Veja” é imparcial? Não. Tanto que apoia Dilma Rousseff e critica Lula da Silva. Sua tese é prosaica: fica com o mal menor. É uma aposta.

Se a “Veja” é apontada como por­ta-voz do tucanato, como se este tivesse voz — o senador Aécio Neves não consegue articular uma ideia convincente sobre qualquer assunto e José Serra, além de paulista “demais”, tem aparência de “general-civil” —, a “CartaCapital” é apresentada como porta-voz do petismo radicalizado mas intelectual. Todos os defeitos do país estariam sendo atribuídos pela revista ao tucanato e tudo de bom seria responsabilidade dos governos do PT. Aponta-se que, com certa habilidade, o grupo dirigido por Mino Carta, um dos mais sérios e competentes jornalistas do país — criou a “Quatro Rodas”, a “Veja”, a “Is­toÉ” e a “CartaCapital” —, faz ressalvas, aqui e ali, criticando setores do governo federal. No caso do terrorista Cesare Battisti, a revista destoou e criticou acidamente o governo, especialmente o ex-ministro da Justiça Tarso Genro — espécie de “sogro” da democracia e defensor do assassino italiano. Em editoriais e reportagens bem urdidos, Mino Carta e os jornalistas da casa mostraram que a Itália é uma democracia, apesar dos percalços, e que o Brasil se comportou de maneira indecente.

Mas não resta dúvida: “Carta­Capital” não faz segredo de que defende o governo petista e é uma crítico visceral das oposições, principalmente do tucanato paulista — o único razoavelmente ideológico do país; o de Minas Gerais, com Aécio Neves, aproxima-se do populismo de Lula. Isto faz algum mal para o país e para o jornalismo? Não faz nenhum mal. Pelo contrário, é positivo que “Veja” se posicione de modo mais crítico ao lulopetismo e é positivo que “CartaCapital” tente apresentar uma argumentação convincente inteiramente pró-governo Dilma Rousseff. É da democracia que os grupos sociais, inclusive os jornalísticos, definam suas posições com o máximo de clareza. A diferença essencial entre “Veja” e “CartaCapital” é mais no campo político mesmo: a primeira é anti-Lula e pró-Dilma, a segunda é pró-Lula, sobretudo, e pró-Dilma. Do ponto de vista do mercado, as duas revistas defendem o capitalismo, embora a “CartaCapital” seja mais crítica das elites e proponha uma sociedade “menos desigual”. Sua crítica ao capitalismo é, claramente, vaga, pois, além dos anúncios do governo — os mesmos que as outras publicações recebem —, sobrevive do material pago pela iniciativa privada. É relevante que a “CartaCapital” admita publicamente que apoia o petismo. Seus leitores estão avisados. Espera-se que os leitores da “Veja” não tenham abandonado a revista, como dizem, “do PT”. A verdade é que, embora próxima do PT, a revista não é uma “instância” do partido — assim como a “Veja” não é uma “instância” do PSDB. As duas revistas pertencem a empresas — Mino Carta é sócio de um ex-dirigente da Bolsa de Valores e do economista Luiz Gonzaga Belluzzo — e, portanto, não são empreendimentos puramente ideológicos. Mas nenhuma é inteiramente independente. A tese de “jornalismo independente” — de “rabo preso” tão-somente “com o leitor” — é mera publicidade.

Não se deixe enganar, leitor: não há jornalismo totalmente independente e imparcial. Mesmo a “verdade factual”, de que tanto fala Mino Carta, pode ser construída, e costumeiramente é, a partir de convicções ideológicas e partidárias. O importante mesmo é manter o espírito livre, saber (pelo menos) com (certa) precisão o que se está lendo e ler tudo (esquerda, direita, centro), sem perder tempo com questiúnculas sobre “independência” e “imparcialidade”. Os melhores meios de comunicação são aqueles que são parciais, que assumem e escancaram sua parcialidade.


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Edição 1926 de 3 a 9 de junho de 2012 
Euler de França Belém

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